tá bom, tenho cara de gringo, admito. aqui no maranhão isso é uma verdade inconteste pra qualquer loiro de olhos claros e alto.
mesmo assim ainda não me acostumei. sei lá porque mas me irrito com meninas sussurrando “what’s your name” em tom de galhofa com as amigas no calçadão e cobradora de ônibus perguntando se eu sou estrangeiro depois de eu ter pedido informações em português!
eu sei, eu sei, pros padrões daqui eu sou quase alienígena. se morasse em belém não seria pra tanto, lá ainda há um certo cosmopolitismo. mas aqui o que se vê é a elite alisando e pintando o cabelo de loiro, por mais ridículo que isso fique, só pra parecer com a elite de verdade, na opinião deles,a paulista.
de qualquer forma, hoje foi além dos limites. vinha eu com toda a minha pinta de local andando pela rua – all-star, mochila, óculos escuros e mp3 – quando um carro da polícia civil pára ao meu lado. no meio da rua.
eu não tenho amigos na polícia. mais, eu não gosto de polícia! acho que ela é um mal necessário pra se viver em sociedade, assim como os juízes. mentira, os juízes são o mau karma pela humanidade querer achar que há alguém que pode decidir pela vida dos outros, e por acreditarem que a abstração da justiça pode ser concretizada por pessoas iluminadas, homens de bem senhores preparados e conscientes ou qualquer dessas outras abstrações que inventamos pra fechar os olhos sobre o travesseiro.
mas voltemos à polícia civil. mesmo sem conhecer ninguém nela virei a cabeça, vai que é um desses milhares de conhecidos que desconheço (mal meu esse de cumprimentar a todos). não era. o senhor, em fila dupla numa rua estreita atravancava o trânsito pra me perguntar:
_ Você é gringo?
_ Não – bufei internamente enquanto falava.
_ De onde tu veio?
_ Da casa da tua esposa! – não, na verdade isso era o que eu queria dizer, na verdade disse apenas: Do paraná. e saí antes que pudesse cometer algum desacatao.
e ele seguiu seu caminho. não dá nem pra dizer que ele quis ser solícito, que achou que eu precisava de ajuda, que pensou que o gringo estava perdido. não, ele só foi enxerido mesmo,! afinal, o que ele diria se eu respondesse “yes, i’m not brasilian”?!
no fim, foi menos irritação e mais a surrealidade do fato mesmo.
no fim eu sou um estrangeiro mesmo, um ser que não entende os costumes desses nativos.
****
da rua eu fui ao detran, tirar minha carteira depois da minha
aprovação com louvor. o prazo de entrega era quarta-feira. fui dois dias depois, escolado que sou em prazos não cumpridos.
eis que agora...continuo sem carteira! a instituições do estado são muito mais espertas do que eu e sabem como me ludibriar. minha carteira foi pra impressão hoje e deve ficar pronta segunda feira. de nada adiantou bufar, espernear e ficar quase uma hora numa fila pra conversar com uma coordenadora que – obviamente – nada podia fazer.
saí de lá sem nenhum resultado prático. não consegui nem um requerimento de urgência, nem uma declaração em que eles admitiam ter descumprido o prazo de entrega. a culpa nunca é do órgão, mesmo quando ele é culpado.
mas saí de lá desopilado. pude falar tudo que pensava pra todos os envolvidos, exceto pra uma atendente que me desarmou de uma maneira mui simples: solicitude.
****
voltando ao trabalho, depois de esgotar minha hora de almoço nessas ida e vindas, outra surpresa me aguarda.
desta vez não seria o destino o responsável por uma tragédia. esta seria conseqüência direta de meus atos.
é que, de tão afobado em resolver tudo antes de viajar a salvador semana que vem, consegui a façanha de me prender pra fora da sala. acionei a tranca automática, saí pra escovar os dentes e só depois da porta fechada verifiquei que a chave não estava no meu bolso, mas em cima da mesa.
quase desesperei, quase. minto, me desesperei por um minuto. mas, antes de mandar arrombarem a porta - nenhum outro servidor viria trabalhar esta tarde a chave de casa tava junto à da sala - lembrei que sempre deixo a janela aberta, já que não gosto de ficar preso na doença genérica que são as antigas tubulações de ar-condicionado.
ou seja, bastou pegar uma escada com o pessoal da manutenção, pular a janela e abrir gloriosamente minha própria porta, agora já de posse de minha chave!
o lado bom de fazer besteiras é conseguir resolvê-las.
mas, se eu não estivesse tão bem na vida, com esse amor que carrego e que me carrega lado a lado, bem que poderia estar carregando o
inferno astral da gi no lugar dela.
****
um
espasmo final: me ligaram de uma boate de que nunca ouvi falar (planet hall?! nem sabia que o planeta tinha hall. pra mim, lugar com hall só no detetive – aquele da estrela!) pra me convidar pra discotecagem do dj macau (quem?! é atração internacional ou só mais um que inventou um nome descolado pra não ser conhecido como “dj vatuílson”?). segundo a carla (ou seria Karla?), que me ligou, hoje vai ta muito legal e “a gente” (da boate, funcionários ternurosos que só eles) “gostaria muito que você aparecesse”.
pensei que era trote, juro! mas a moça ficou séria até o final – isto, é, tão séria quanto a falsa atitude “descolada” dela permitia.
ufa, não são nem 4 da tarde e já me aconteceu mais surrealidade do que filme do buñuel (tinha que encerrar com uma citação pseudo, até porque só assisti um filme do dito cujo até hoje).