guimarães rosa é que sabia das coisas. viu invencionice onde a havia, no linguajar dopovo, que mistura arcaísmo com novidade e se entende e se explica e cria novos conceitos.
os quilombolas fazem o mesmo. sobretudo nos documentos oficiosos - antigamente manuscritos em papéis de caderno, hoje já digitam no computador do sindicato dos trabalhadores rurais do município - tentam copiar o modo de falar dos burocratas, e se saem melhor.
dois exemplos disso acabei de ver. o primeiro numa carta ao chefe de estrutura fundiária em dezembro:
“o objetivo desta carta é lê tornar Siente da situação em santa rosa dos pretos...”
lindo isso! criaram uma forma muito mais efetiva de comunicação. ao invés do chefe simplesmente tomar ciência do que ocorre, usando apenas de sua racionalidade falha, pedem que ele sinta os fatos. siente, ciente, sente.. muito mais fácil compreender quando se coloca todos os sentidos – e não somente os olhos - na história alheia. se sientíssemos ao invés de apenas cientificarmo-nos seríamos muito mais comprometidos com o outro. taí uma lição pra ser apreendida.
o outro exemplo de sabedoria involuntária está nas nas assinaturas de um ofício. ao lado da digital, identificação de quem não sabe escrever mas quer se fazer presente no documento, lê-se entre parênteses “ANALFABETIZADO”.
dado o desserviço que o mobral prestou à nação, eles não poderiam estar mais certos.
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Publicado em 01 de agosto de 2008 às 10:38 por groucho