saldo de aratu

dois neologismos.

guimarães rosa é que sabia das coisas. viu invencionice onde a havia, no linguajar dopovo, que mistura arcaísmo com novidade e se entende e se explica e cria novos conceitos.

os quilombolas fazem o mesmo. sobretudo nos documentos oficiosos - antigamente manuscritos em papéis de caderno, hoje já digitam no computador do sindicato dos trabalhadores rurais do município - tentam copiar o modo de falar dos burocratas, e se saem melhor.

dois exemplos disso acabei de ver. o primeiro numa carta ao chefe de estrutura fundiária em dezembro:

“o objetivo desta carta é lê tornar Siente da situação em santa rosa dos pretos...”

lindo isso! criaram uma forma muito mais efetiva de comunicação. ao invés do chefe simplesmente tomar ciência do que ocorre, usando apenas de sua racionalidade falha, pedem que ele sinta os fatos. siente, ciente, sente.. muito mais fácil compreender quando se coloca todos os sentidos – e não somente os olhos - na história alheia. se sientíssemos ao invés de apenas cientificarmo-nos seríamos muito mais comprometidos com o outro. taí uma lição pra ser apreendida.

o outro exemplo de sabedoria involuntária está nas nas assinaturas de um ofício. ao lado da digital, identificação de quem não sabe escrever mas quer se fazer presente no documento, lê-se entre parênteses “ANALFABETIZADO”.
dado o desserviço que o mobral prestou à nação, eles não poderiam estar mais certos.

***
estela, este é um post em que teus comentários são obrigatórios!

Publicado em 01 de agosto de 2008 às 10:38 por groucho

Comentários

    • Isso é romantização da ignorância, Groucho. Nunca achei o Guimarães Rosa lá essas coisas, mas o homem falava 11 línguas, inclusive russo e dinamarquês.
    • por briguet
    • 01.Ago.2008 às 10:45 - Permalink - Reportar
    briguet
    • E mais: a linguagem do Guimarães Rosa não existia na vida real; só era encontrada nos livros dele. Era um produto do intelecto, arraigado na cultura ocidental. Mas não era um autor original, como dizem: sem Joyce, Rosa não seria nada. Para despistar, dizia que detestava Joyce. Conheço o truque. Mas, de qualquer forma, Rosa é melhor que quilombolês. Taí um bom título para conto: "O homem que sabia quilombolês".
      Abraço e cervejinha.
    • por briguet
    • 01.Ago.2008 às 10:55 - Permalink - Reportar
    briguet
    • Judiação!
      Tinha uma diarista lá em casa cuja carteira de identidade dela continha apenas o polegar, porque ela não foi alfabetizada e não sabia escrever o próprio nome - olha que tristeza.
      Pelo menos esses caras aí sabem as letrinhas... fazem merda com elas, mas sabem!
    • por maven
    • 01.Ago.2008 às 11:26 - Permalink - Reportar
    maven
    • Bom, fui invocada a comentar. rs. Não vou falar de sociolinguística para evitar ser espinafrada novamente por aqui, mas pra mim, tanto faz como se escreve, o que interessa mesmo são as idéias. Eu até gosto do G. Rosa, mas entre ele e as composições do Cartola, que não terminou nem o ensino fundamental, o velho Agenor mais me comove. Mas aí é questão de gosto. Às vezes a beleza está onde nem se imagina. E às vezes, como citou o Maven, pessoas supostamente alfabetizadas, ou analfabetos funcionais, que seja, podem sim abrir a boca e serem geniais também, pois isso independe de ter ou não frequentado bancos escolares.
    • por estela
    • 01.Ago.2008 às 12:03 - Permalink - Reportar
    estela
    • olha brigute,
      tu diz que isso que eu vejo por aqui é romatização de ignorância. que seja, prefiro isso ao cinismo da intelectualidade.
      além do quê, como disse a estela, sabedoria não tem nada a ver com conhecimento da norma.

      de resto, nunca disse que a linguagem do rosa existia. nem saberia dizer sobre isso, não estudei a obra do cara e mesmo asim imaginava que era uma língua inventada.

      mas, como já disse em posts anrtigos, ao ler - e falar - com esse homens que nascem sabendo quilombolês, dá pra perceber na lata de onde guimarães rosa tirou suas referência.

      e nem vou entrar na discussão de que não existiria rosa sem joyce. não conheço tanto joyce pra discutir.
      mas se começarmos com isso daqui a pouco vem um e fala que sem homero não existiria joyce e sem caim não haveria ulisses e sem adão nem o caim poderia existir e por aí vai....
    • por groucho
    • 01.Ago.2008 às 16:00 - Permalink - Reportar
    groucho
    • As influências sempre existem. Joyce se baseou em Homero para fazer uma coisa completamente nova. Mas o Rosa, apesar de ser um bom escritor, não era o primor de originalidade que costumam dizer (não você; a turma em geral).
      Abraço e cervejinha.
    • por briguet
    • 01.Ago.2008 às 16:07 - Permalink - Reportar
    briguet
    • mas por aí fica difícil dizer onde começa a originalidade e termina a influência.
      do pouco que conheço do joyce, acho-o bem diferente do guimarães rosa. não sei se pela temática que, obviamente, seria diferente.

      pelo pouco que conheço de literatura, rosa foi original sim, deixando-se ou não influenciar pelo joyce. a influência pode existir memso que ele a negue internamente mas, sinceramente, pra mim isso é o de menos. eu só ifco feliz de poder ler guimarães rosa no originaç. deve ser um esforço tremendo ser o tradutor daquilo.

      até mais ver.
    • por groucho, deslogado por culpa do sistema
    • 01.Ago.2008 às 16:28 - Permalink - Reportar
    groucho, deslogado por culpa do sistema
    • Estou fazendo uma análise comparativa dos livros de Guimarães Rosa e Joyce.Análise esta que está me dando dor de cabeça,por isso vejam se vocês entram em um acordo e me ajudam a entender melhor o que esses dois lesos queriam realmente dizer em seus livros pelo amor de Deus.
    • por Maria Inês Ferreira da Silva
    • 19.Nov.2008 às 23:05 - Permalink - Reportar
    Maria Inês Ferreira da Silva
    • Um dos aspectos dessa análise são os neologismos.Agora como fazer essa bendita análise se os porras dos tradutores de "ulisses" optaram por outras palavras do nosso idioma quando no ato da tradução.
    • por Maria Inês F. da Silva
    • 19.Nov.2008 às 23:15 - Permalink - Reportar
    Maria Inês F. da Silva
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